Cicloamazônia

Uma travessia de bicicleta pela Transamazônica

Mais de 400 km de hospitalidade, poeira e subidas

Cansados. Exaustos. Percorremos mais de 400 km em quatro dias em condições bastante adversas até chegar em Apuí, onde paramos para recarregar as baterias. Pedalamos sem sombra durante esta parte da viagem. A floresta que deveria estar ao redor da estrada o gado comeu. Quer dizer, primeiro ela alimentou – e ainda alimenta – as madeireiras e, depois, virou pasto. Na Amazônia, a temperatura fica mais dura sem sombra. No trecho anterior, de Lábrea até Humaitá, sempre podíamos parar e descansar. Dessa vez, decidimos avançar mais rápido justamente por conta dos trechos inóspitos. São quilometros e quilometros de pastagem sem nenhuma árvore para amenizar o sol. Quando não é campim, são tocos e terra queimada, arrasada mesmo. Na pecuária, em vez de roçar o mato para abrir espaço para o boi, todos parecem optar pelo fogo. Além da poeira dos caminhões, nos últimos dias tivemos que respirar constamente fumaça. O horizonte é de um azul borrado que varia entre tons de areia e cinza. É triste.

Mas, mesmo assim, temos tido experiências incríveis, especialmente no tocante à hospitalidade de quem vive nesta terra. As últimas noites desde que deixamos Humaitá foram inesquecíveis. Na ordem:

1 – Hospedagem em uma aldeia Jahui – Dona Maria Madalena, uma avó índia de mais de 70 anos, e sua família nos receberam em nossa primeira noite na estrada. Generosos, não só permitiram que armassemos as redes em uma casa em construção, como ofereceram comida (macaxeira, cará e café doce) e banho. Em um português mal falado, a experiente senhora passou horas contando sobre como era a região antes da Transamazônica ser construída. Alimentados, nos abrigamos no casebre de palha. Foi um momento de superação passar a noite com aranhas caranguejeiras lotando o teto, assanhadas por conta da única pancada de chuva que presenciamos desde que começamos a viagem.

 

2 – Bloqueados no km 150 – Avançamos bem durante a manhã e, após 53 km pedalados desde a terra dos Jahui, fomos obrigados a parar no bloqueio organizado por fazendeiros e indígenas da região que reivindicam a instalação de energia elétrica prevista no programa Luz para Todos. Conseguimos dialogar e, por fim, eles permitiram que prosseguissemos contanto que passassemos uma noite no local. Eles ofereceram comida e pudemos armar as redes em árvores. Dormimos em meio à confusão de caminhoneiros estressados querendo prosseguir viagem após dias ali parados, fogueira e rodas de violão. Para que pudessemos sair sem alarde, fomos orientados a prosseguir às 4h da madrugada. Foi nosso primeiro pedal noturno.

 

3 – Contrastes – Sol se pondo, cansados depois de pedalar desde a madrugada e nada, nenhum lugar minimamente adequado para armarmos acampamento. No coração da floresta, simplesmente não encontramos duas árvores para amarrar nossas redes e mosquiteiros. Exaustos e preocupados com o fim do dia, começamos a bater em alguns portas – ou melhor, porteiras. Na primeira, o fazendeiro ao lado de uma picape Hilux e duas dezenas de vacas não se animou em sequer conversar. “Onde minhas vacas vão comer à noite?”, respondeu duro, quase irritado, diante da sugestão de que poderíamos pernoitar no cocho. No escuro, pedalando com cuidado, encontramos duas mangueiras em meio a um matagal. Ao pararmos para analisar a possibilidade de acampar, ouvimos um grito. Elias, caseiro de uma das fazendas, nos abordou e ofereceu espaço no quintal da sua casa e comida: carne preservada com sal e pimenta dentro de um balde.

 

4 – O generoso Riba – Partimos em direção ao rio Mata-Mata, onde há uma vila de ribeirinhos e a perspectiva de um bom almoço. Pedalamos 60 km de uma feita só para poder parar e descansar na beira do rio, o que nos obrigou a encarar o sol do meio dia em meio a subidas intermináveis. Após essa parada, atravessamos a balsa e seguimos com o objetivo de alcançar a casa de um contato feito em Humaitá. Não conseguimos. De novo, começou a anoitecer e, diante da perspectiva de passar sufoco no escuro, pedimos informação para o homem que seguia na estrada em seu cavalo, munido de uma espingarda, com um cachorro ao lado. Seu Riba nem hesitou. “Vocês vão dormir e comer é em casa mesmo, é simples e bagunçado, mas a gente mata um frango”. Acabamos em meio a cerca de 100 galinhas, 12 cachorros, incontáveis porcos, cabras e búfalos. Enquanto alimentava essa turma toda, que o perseguia piando, mugindo, latindo e roncando, ele se preocupava com a gente: “Lavar a perna, não, vocês vão é tomar banho direito. Vocês desculpem, a comida já sai”. E seu Riba fez a melhor galinha caipira que os três já comeram na vida, temperada com pimenta-do-reino, ervas, alho, cebola e gengibre. Foi uma das melhores noites da viagem. Antes de partir, nos ofereceu um litro de leite de búfalo tirado na hora, que, em mais um dia longo de pedal, acabou virando almoço.

 

13 Comments on “Mais de 400 km de hospitalidade, poeira e subidas

  1. leniza silva
    16/08/2012

    Maravilha Dan 😉 Experiências, perrengues e pessoas que vão marcar toda a vida de vocês. Beijo grande

  2. leniza silva
    16/08/2012

    ps. A primeira foto está linda!

  3. Palmas
    17/08/2012

    Nique a escolha de dormir em rede parece que ta ajudando oceis a fazer amigos?

  4. tato
    17/08/2012

    Cara que espetáculo de rolê.., continuem escrevendo que eu continuo acompanhando, grande abraço cabeloo! força!

  5. paulo teixeira
    17/08/2012

    Uma experiência inesquecível. Toca pra frente.

  6. Fabricio
    17/08/2012

    Sensacionais historias, Santini. Espero que possam manter o ritmo dos relatos.
    Abraço e boa sorte.
    (da cordilheira andina).

  7. Sueli e Wilson
    18/08/2012

    Aos tres que vcs tenham,muita sorte para continuar com este projeto maravilhoso,que Deus abençõe ,por onde quer que andem,JUNIOR,felicidades nestes caminhos por onde andares,e quero te pedir uma coisa,que me tras uma pedrinha do solo de algum desse slugares que passar, grande beijo.

  8. Gustavo Silveira
    18/08/2012

    E ai Galera!!!
    Muito bom ter noticias! É muito louco, estou próximo a Av. Paulista e com esse relato de hoje me senti perto de casa!! Boa jornada!! Forte abraço aos três!!

  9. Tacizio/Jardelita
    18/08/2012

    Fantastico!! Relatos que farão parte do “nosso livro de aventuras” certo Daniel? Um abração aos tres .

  10. Tom Bike
    21/08/2012

    Belíssimas Histórias 😀 Cês tão ficando bem morenos ein? hehehe abraços Daniel e galera!

  11. Carolina Motoki
    24/08/2012

    Que maravilha, Daniel (e companheiros)! De emocionar mesmo a acolhida das pessoas lindas que resistem onde antes era floresta, fazendo a vida re-existir. beijos!

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